Excesso de limpeza pode prejudicar as defesas do organismo em crianças, diz pesquisa - Reportagem do Jornal O Popular

Pesquisadores descobriram que uma bactéria que vive constantemente na pele é responsável por impedir inflamações após ferimentos, mas esses micro-organismos são eliminados por produtos de limpeza, como sabonetes e sabão

Renato Queiroz
renato.queiroz@opopular.com.br
27/10/2018

A administradora Giovana Antinarelli com os filhos Letícia, 7 anos, e Heitor, 6: mudança de concepção com a chegada do caçula (Foto: Zuhair Mohamad)

Imagens de crianças enlameadas, brincando na terra e, literalmente, pintando e bordando seguidas pelo bordão “porque se sujar faz bem”. O comercial de TV – que parece apenas um bom truque de publicitários para vender mais sabão em pó – tem fundo de verdade. Um estudo americano publicado pela revista on-line Nature Medicine mostrou que o excesso de limpeza e higiene pode prejudicar a saúde, em especial a das crianças.

Pesquisadores da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia, em San Diego, descobriram que uma bactéria que vive constantemente na pele é responsável por impedir inflamações após ferimentos. O problema é que esses micro-organismos são eliminados por produtos de limpeza, como sabonetes, sabão e desinfetante. Neste caso, o excesso de limpeza poderia acabar com essa proteção natural na pele das crianças, podendo fazer que um simples ferimento inflame mais do que deveria.

“Há décadas houve a descrição da hipótese da higiene. Verificou-se que irmãos mais novos da família apresentavam menos rinite alérgica e a explicação é que o contato com infecções trazidas pelos irmãos mais velhos poderiam protegê-los da alergia”, explica a médica alergista e imunologista Anete Grumach. Alguns trabalhos feitos na Alemanha mostraram que, em famílias com muitos filhos, o caçula estaria protegido de alergias, devido ao contato com os mais velhos. A teoria defendida pelo estudo americano reforça a importância do contato com germes na primeira infância para que as crianças fortaleçam seu corpo contra alergias.

A administradora Giovana Antinarelli, de 39 anos, mãe de Letícia, 7, e Heitor, 5, confessa que ficou quase neurótica com o nascimento da primeira filha. “Muito álcool em gel, banho somente em água filtrada e fervida e três chupetas: se uma caísse no chão só voltaria a usar após esterilizada. Queria protegê-la dos vírus e bactérias para evitar doenças. Com o tempo fui relaxando um pouco mais e com o segundo filho foi completamente diferente”, conta. Mais relaxada, Giovana compreendeu o sujar também era importante para desenvolvimento das crianças.

Hoje Letícia e Heitor aproveitam a liberdade de brincar no quintal da casa onde moram e são até estimulados pelos pais a se sujarem. “Claro que higiene é fundamental e é obrigação dos pais passarem isso aos filhos, mas nada de excessos. Prefiro que eles brinquem, corram e suem no quintal do que fiquem apenas grudados no tablet ou celular”, explica Giovana. Atualmente, a escola das crianças está com um projeto para estimular o resgate de brincadeiras tradicionais.

Apesar dos estudos não serem conclusivos sobre a importância de se sujar na infância, há evidências que o excesso de limpeza que se vê hoje nas sociedades modernas está levando a um grande número de pessoas alérgicas no mundo. O contato com os germes serviria como uma espécie de vacina. “A conclusão não é tão simples. Muitos fatores contribuem para o desenvolvimento da alergia e este poderia ser um dos fatores”, explica a imunologista Anete Grumach .

Para a especialista, a doença alérgica está relacionada com muitos fatores. Assim, a atitude mais correta é identificar os fatores mais importantes em cada paciente, tentar melhorar as condições e procurar por tratamento adequado, pois, há atualmente muitos recursos para controle dos sintomas e com a ocorrência reduzida de efeitos colaterais. “É importante que a abordagem seja correta para evitar consequências futuras”, alerta.

*Fonte: https://www.opopular.com.br/editorias/magazine/excesso-de-limpeza-pode-prejudicar-as-defesas-do-organismo-em-crian%C3%A7as-diz-pesquisa-1.1648700

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